Homem morre após ser pisoteado ao participar de farra do boi, em Santa Catarina

A Polícia Civil investiga a morte de Evandro Evaldo Maria, de 37 anos, após participação dele na prática ilegal conhecida como farra do boi. Ele morava em Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis, e teria sido pisoteado pelo animal. A vítima teve várias fraturas na cabeça e ficou internada durante uma semana, mas não resistiu.

Evandro Evaldo Maria, de 37 anos, teve várias fraturas na cabeça/Reprodução
A pena prevista na Lei Federal que proíbe a farra do boi é de três meses a um ano de detenção e multa. Entretanto, continua a ser promovida em algumas cidades catarinenses, mesmo sendo proibida no estado há 20 anos.

A ativista Bárbara Cardoso Hartmann critica a prática. “Uma brincadeira é algo saudável que envolve o consentimento de todo mundo que está brincando. Então, não tem nada de brincadeira, né, porque uma das partes não está consentindo, que é o animal que, na verdade, é torturado”.

"Praticar crimes contra seres, seja ele animal ou humano, não é cultura", disse Maria Helena Machado, presidente da Comissão de Direitos Animais da OAB-SC.
Eles deixam o boi sem comida, sem água. Deixam três, quatro dias o boi ali trancado”, disse. Em outros casos, os farristas ainda cortam o rabo do boi, para que o animal fique nervoso e saia correndo na hora que é solto.

A prática é considerada ilegal no Brasil desde 1998, mas ainda acontece às escondidas.
"Em Governador Celso Ramos, eu tenho depoimento de pessoas que dizem 'as pessoas da cidade são minoria, eles vêm de Florianópolis para cá, e esses bois são doados por políticos, por comerciantes e até por traficantes", disse a representante da OAB.

Recolhimento de animais

No ano passado, o Ministério Público de Santa Catarina mandou um ofício para todas as prefeituras pedindo pra que elas começassem a recolher os bois. Até então, esse serviço era feito pela Polícia Militar ou pela Cidasc (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina).

As vezes o animal é sacrificado dias após a ''brincadeira''.
A Polícia Militar disse que o número de casos de farra do boi que aconteceram neste ano deverá ser divulgado quando a operação contra esse crime terminar, e que o relatório deverá ser apresentado à imprensa depois do feriado de Páscoa.

História

A farra do boi teria sido trazida ao Brasil por imigrantes açorianos entre 1748 e 1756. 
Originalmente, o boi era engordado, fazia-se a farra, e em seguida o animal era sacrificado para servir de alimento

Com o passar do tempo, a prática se modificou. Em sua versão moderna, o boi é levado ao local escolhido pelos farristas e solto, momento a partir do qual inicia-se a perseguição e as agressões – com mãos e pés, ou pedaços de madeira – até que o animal fique exausto e não consiga mais se levantar. 

Ai a farra acaba e o boi é abandonado. Geralmente, devido à gravidade dos ferimentos, o boi tem que ser sacrificado após ser encontrado pelas autoridades.

Desde as últimas décadas, a farra do boi ocorre com frequência no litoral de Santa Catarina, em cerca de trinta comunidades, geralmente de pescadores, notavelmente no município de Governador Celso Ramos.

A partir da década de 1980, a farra do boi começou a ser muito combatida por grupos que defendem os animais e que passaram a fazer intensa campanha contra o ritual por considerá-lo cruel com o animal.