Um relato emocionante de quem viveu a tragédia de 1959, em Rio dos Pardos

Na tarde chuvosa de domingo em Canoinhas, em 13 de agosto de 2017, a sra. Lourdes Irene Paul Reinert nos recebeu em sua casa para um chimarrão e uma conversa.
É uma data muito triste para ela. Relembra a trágédia vivida por aquela menina, então com 13 anos de idade, na localidade de Rio dos Pardos, em 13 de agosto de 1959.

Imagem da época, onde ficava a residência de Ernesto Paul, pai de Lourdes.
Imagem: Acervo pessoal
Já era fim de tarde quando voltava da lavoura com seu pai, Ernesto, quando encontraram o Sr. José Agápio, com seu filho Clemente, na época com 7 anos.
Estava tudo quieto, meio nublado, nuvens amarelas com tons de roxo.
-O que o senhor nos conta deste tempo? perguntou José Agápio, ao pai de Lourdes.
-Olha, "tá pra cair muita pedra. Essas nuvens...é pra muita pedra".
Mas não caiu uma só pedra, nem uma gota de chuva, e foi a última vez que José e seu filho Clemente foram vistos com vida.

Mais tarde, depois de colocar a irmã mais nova, de apenas 5 anos para dormir, Lourdes e os pais, também preparavam-de para se recolher.
A casa era com sótão, e a mãe de Lourdes, Olinda, ao subir olhar os filhos que já estavam dormindo, observou uma grande barra branca no céu e comentou que o tempo ia ficar bom.

Assim que desceu as escadas, começou um barulho muito forte. De repente.
"Como se tivesse um monte de caminhão e trator roncando e derrubando tudo. Aquilo vinha moendo tudo", relembra Lourdes.

"Depois deu um estouro muito grande, em cima da casa. Eu segurei com força na roupa de minha mãe e gritava: -Mãe acuda que o mundo tá acabando. Mãe o mundo tá acabando."

"Depois não vi mais nada. Quando acordei , não sabia onde que eu tava. Não tinha dado um pingo de chuva. Nada. Estava no meio do mato, ao lado de minha mãe. Devo ter me agarrado a ela com tanta força, que o vento nos levou juntas."

"A escuridão era total. Tudo destruído. Bem longe eu vi uma coisa que fazia assim (piscava como se fosse fogo) e depois sumiu. Só se ouvia gemidos. Lá longe eu vi uma luz. Chamei minha mãe para irmos até lá. Minha mãe chorava e gritava: -Nossa Senhora traga meus filhos, Nossa Senhora traga meus filhos...".

Imagem da época. Imagem: Acervo pessoal
"No caminho para aquela luz, ouvi um gemido. Era o João Urbano (Reinert). Estava caído, bem longe de onde era sua casa. Ele não resistiu. A esposa dele, Noemia, na época grávida de 7 meses, também morreu. Dos seis filhos, quatro meninos morreram. Ficou as duas meninas".

"Quando chegamos naquela luz, era a farmácia do Antônio Batista. Todo mundo foi para lá. Queriam remédios. Todo mundo estava vomitando. Tinha muita gente morta por ali. Todos no chão."

"Um dos sobreviventes, Euclides Sabatke, disse que saiu na janela para ver o que era aquele barulho. E viu tudo branco por baixo. Como se as nuvens estivessem no chão. E bolas de fogo. Aquelas bolas subiam e desciam. Muita gente relatou ter visto essas bolas de fogo."

Imagem do bêbe da família Truhan, tirada na época, no Hospital Santa Cruz de Canoinhas. Conta-se que ele foi encontrado dentro do berço.
"Os corpos foram levados, em dois caminhões, para a cidade. Tanto dos mortos como quem estava ferido. Fui tudo colocado um do lado do outro."
"A minha irmãzinha deitada, Roseli o nome dela, e eu chamava: -Rose, Rose, Rose...ela acabou falecendo ali mesmo, em cima do caminhão."

"Foi sofrimento demais. Triste, triste. Minha mãe quando saiu do hospital, não enxergava, o rosto inchado e roxo. Meu pai ficou muito machucado."

"Depois de ter uma casa grande, fomos morar em uma meia água, com fogãozinho de barro, na localidade do Rio da Areia. A casinha era dos empregados do meu tio, que tinha uma serraria. Tinha um quartinho, que cabia um colchão no chão. Dormia eu, meus pais e meu irmão. As outras duas irmãs dormiam na casa do tio."

"De madrugada, quando trovejava, a mãe gritava: -Vamos correr lá pro tio. Um dia nós saímos as duas horas da madrugada, pra casa dele. Foi muito sofrimento."

"Meu pai não recebeu nem um botão, nem uma tábua. Eles embolsaram tudo. Não sei de ninguém que tenha recebido ajuda pra reconstruir." desabafa Lourdes.
 Imagem: Canoinhas Online
Questionamos dona Lourdes, sobre a ajuda, em dinheiro, que várias entidades mandaram na época, inclusive o Vaticano, o governador de Santa Catarina e a Câmara de Vereadores de Canoinhas.

"Não vimos nada. Meu pai não recebeu nem um botão, nem uma tábua. Eles embolsaram tudo. Não sei de ninguém que tenha recebido ajuda pra reconstruir."

A família de Lourdes, como tantas outras,  perdeu tudo. A casa, lavoura, a criação. Passou por muito medo e sofrimento. Com o passar do tempo e com o próprio esforço, tudo foi reconstruído.

Mas a dor de ter perdido duas irmãs na tragédia, uma menina de 5 anos, e outra de 14, essa jamais será esquecida.

Todos os anos, nesta data, dona Lourdes é tomada por muita tristeza. Diz que relembra tudo e a dor ainda é muito forte. São marcas que jamais se apagarão.

O saldo da tragédia

Os mortos:
-João Urbano Reinert, sua esposa Noemia Zimmer Reinert e seus quatro filhos: Benito Luiz, Aurélio, João Assis e Carmelo Almir Reinert. Todos menores. Na mesma casa estava Maria Terezinha Habitzrentr, sobrinha do casal.

-Hilda Kischler e suas filhas Laurina e Norma Kischler.

-José Rodrigues Martins,  mais conhecido como José Agápio, e seu filho Clemente Martins.

-Maria Luiza e Roseli Paul, filhas de Ernesto Paul.

45 pessoas feridas deram entrada no Hospital Santa Cruz. Alguns deles em estado grave, mas todos sobreviveram.

Agradecemos a Sra. Lourdes Paul, por nos receber tão gentilmente para falar de um assunto que, nota-se claramente, ainda faz mal para a alma.
Mas ela pode ter certeza que este relato ajudará às futuras gerações, e o povo canoinhense, a não esquecer essa tragédia, que faz parte de nossa história.

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