13 de agosto de 1959. Há 58 anos um tufão destruía a localidade de Rio dos Pardos, interior de Canoinhas

13 de agosto de 1959. Era "boca da noite", como diziam os mais antigos. A noite se anunciava com trovões ameaçadores.
O Sr. Romão Niedzelski (in memorian), morador da localidade de Barra Mansa, interior de Canoinhas, fumava seu "pairerinho" na varanda de sua casa e observava o céu:
-"Véia, Ina, venham cá ver uma coisa, parece fim do mundo". Mulher e filha foram observar o que era.
Ludovina Niedzelski, a Ina, hoje com 75 anos, é que nos conta essa lembrança. Na época com 17 anos, ela conta o que relembra.

Tufão que devastou a localidade de Rio dos Pardos em 1959. Imagem: Acervo Cultural
Ao observar o céu, diz que estava muito vermelho, lá "pro lado dos Pardo". "Parecia fogo no céu, era muito raio e relâmpago, sem parar. Muito mesmo. E ouvia-se uma zuada que dava medo".

A localidade de Rio dos Pardos dista cerca de 15 km do local. Receosos de aquele temporal viesse para seu lado, 'seu' Romão e a família recolheram-se.

Foto de 1959, logo após o tufão. Imagem: Jornal Correio do Norte
No dia seguinte, logo cedo, acordaram com palmas. Era os irmãos da família Iendras. Traziam notícias da tragédia.

Os irmão vinham de Canoinhas, onde tinham ido descarregar madeira, e na volta depararam-se com o acontecido em Rio dos Pardos. No caminho, paravam para avisar os moradores. A localidadade havia sido devastada. Mortes e muitos feridos. Nada havia sobrado.

Dois dias depois, 15 de agosto, dia da Anunciação de Nossa Senhora, na época dia santo de guarda, o Sr. Pedro Vipieski (in memorian), único da localidade que possuia um 'caminhão Studebaker', levou na carroceria quem quisesse ir ver a devastação.

Dona Ludovina conta o que viu:

"A primeira coisa que eu vi, foi uma tombeira da DER virada. Depois as casas destruídas, só restou os assoalhos.
No lugar onde era o armazém Reinert, não tinha nada. No armazém vendia-se fogão a lenha e peças de tecidos, que foram encontrados a quilômetros dali.
Um cavalo estava morto, com um pedaço de madeira atravessado.
Uma porca também estava morta e os leitãozinhos tentando mamar. Lembro como se fosse hoje. De pessoas não tinha mais ninguém, já haviam levado os mortos e os que ficaram feridos.
Na igrejinha, como para lembrar que devemos ter fé, ficou um pequeno altar de pedra com a imagem de Nossa Senhora", relembra emocionada.
"Parecia fogo no céu", relembra dona Ludovina, hoje com 75 anos.
Imagem: Canoinhas Online
Relato de um sobrevivente:

Naquela quinta-feira 13, Pedro Reinert vinha de ônibus do centro quando decidiu
pernoitar na casa do irmão e seguir a pé até sua casa no Timbózinho no dia seguinte.

A noite se anunciava com trovões ameaçadores, dando a chuva como certa.
Ao invés da chuva, no entanto, veio um tufão. Bastou um estouro e tudo virou gritos e escuridão.

Pedro só teve tempo de se jogar debaixo de um fogão à lenha. “Senti tipo de um
arrebento, estralo de vidraça, só vi o telhado arrebentando em cima de mim, fiz o sinal da cruz e comecei a rezar, mas apaguei”. Ao acordar, pouco depois, Pedro achou que estava sonhando. Ouvia muitos gritos.

“Então vi um vulto vindo em minha direção. Pedi para ter cuidado para não pisar em mim”. A realidade foi tão chocante quanto o falso sonho. Ao lado de Pedro, o irmão Urbano dava os últimos gemidos.

Ao vê-lo morrer, veio o lamento:
“Meu Deus, porque não morri eu, ele cheio de filhos para criar”. O vulto ganhou voz e atalhou a fala de Pedro. “Não diga isso, ele, a mulher e os filhos tão tudo morto”, disse o vizinho conhecido como Jordão, que havia se livrado da fúria do tufão porque estava em um boteco.

Nota: Pedro Jacob Reinert faleceu em dezembro de 2015, aos 82 anos.

Solidariedade:

No dia 14, várias entidades sociais se mobilizaram para ajudar a reconstruir Rio dos Pardos e consolar as famílias que choravam seus mortos. A Câmara de Vereadores liberou 100 mil cruzeiros.

As Pioneiras Sociais de SC doaram 50 mil cruzeiros. Uma Comissão de Auxílio aos Necessitados foi formada.

O governador de SC, Heriberto Hülse, mandou representantes aos funerais das vítimas e enviou 300 mil cruzeiros para a reconstrução das casas.

Até o Papa João 23 se pronunciou sobre a tragédia. “Augusto pontífice concede todo povo particularmente crianças doentes conforto Bênção Apostólica”, dizia o telegrama enviado pelo Papa ao Brasil.

O Vaticano enviou doação de 50 mil cruzeiros para as vítimas. Canoinhas ficou com 25 mil e Lages com o restante.

O tufão que arrasou Rio dos Pardos é considerado a segunda maior tragédia climática da história de Canoinhas.
A primeira tinha passado por Valinhos pouco mais de 11 anos antes, quando um tornado matou 23 pessoas da localidade canoinhense.
+ Depoimento inédito de quem sobreviveu a essa tragédia. Irene Paul, hoje com 71 anos, conta o que foi a passagem do tufão na localidade de Rio dos Pardos, em agosto de 1959

O "Relato de um sobrevivente" e informações posteriores, foi publicado originalmente pelo Jornal Correio do Norte, quando completou-se 50 anos da tragédia.
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