R$ 300 milhões em ouro nos celulares velhos

Um smartphone tem aproximadamente 0,034 g de ouro, que dá hoje em torno de R$ 4,20 e mais R$ 0,63 de prata.

Agora considere que existem no Brasil cerca de 170 milhões de smartphones em uso – o que totaliza nada menos do que R$ 821 milhões só em ouro e prata. 

Uma verdadeira fortuna, e que não para de crescer: a cada ano, em média, 47 milhões de pessoas trocam de smartphone – e os metais preciosos contidos nos aparelhos antigos, cujo valor é estimado em R$ 316 milhões ficam esquecidos no fundo da gaveta.

Mesmo os modelos de celulares  antigos contém ouro
Pode não parecer, mas os aparelhos eletrônicos, mesmo os mais baratos, contêm bastante ouro. É que o ouro é um excelente condutor de eletricidade e demora muito para se degradar.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, existem nada menos do que 500 milhões de aparelhos eletrônicos nas casas dos brasileiros – e isso contando só os que já foram aposentados e estão sem uso. 

Lixo eletrônico e reciclagem

O mundo produz 41,8 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, isso dá aproximadamente 6 kg para cada pessoa – ou o equivalente a 32 iPhones.

Para extrair o 0,034 g de ouro que vai em um único celular, é necessário escavar 10 kg de terra de minas. 
A fabricação do aparelho todo consome 13 mil litros de água, e emite 16 kg de CO2 – a mesma poluição gerada ao rodar 320 km com um carro popular.

Em suma: cedo ou tarde, vai ser preciso reaproveitar o lixo eletrônico da mesma forma que hoje fazemos com as latinhas de alumínio (98% delas são recicladas).

Você deve estar se perguntando: e o ouro? Ele está dentro das placas de circuito impresso, que não são processadas no Brasil. 

Elas são vendidas para as únicas cinco usinas de reciclagem no mundo devidamente equipadas para extrair o metal amarelo, na Alemanha, na Bélgica, no Canadá, na Suécia e no Japão. É isso mesmo: nós não ficamos com o ouro. 



Carlos Ohde, diretor da Sinctronics, empresa de reciclagem que fica em Sorocaba/SP, diz que já fizeram experiências nesse sentido.

“Eu consigo extrair ouro de uma placa. Já fizemos isso em laboratório. Mas os ácidos que usamos são muito poluentes. Para compensar os riscos ambientais, precisaríamos de um volume muito maior de placas”, explica Carlos. O processo só vale a pena quando é realizado em larga escala: cada fábrica especializada nessa tarefa lida com 18 mil toneladas por mês – mais que o dobro de tudo o que o Brasil inteiro recicla em um ano. “Mesmo que todo o Brasil mandasse seus circuitos para cá, não seria suficiente”, afirma Carlos.

Reciclagem do mal

Tem gente que tenta extrair os metais preciosos na marra. É o que acontece em Guiyu, na China. 

Oficialmente, é o maior centro de reciclagem de e-lixo do planeta, com 60 mil pessoas processando 8 milhões de toneladas de peças eletrônicas por ano. 


Na prática, é um dos lugares mais poluídos que existem. Ali, famílias trabalham separando as peças, e depois cozinham tudo o que é pequeno demais para abrir. Incluindo os circuitos.

O resultado é ouro, sim. Mas o processo libera gases tão tóxicos que 80% das crianças dessas regiões estão contaminadas com chumbo no sangue. 

A reciclagem sem o menor cuidado acontece também na Índia, no Paquistão e na África – especialmente em Gana, na Nigéria e no Quênia. Em Nova Déli, 25 mil pessoas trabalham processando lixo eletrônico – tudo sem a menor proteção.

No Brasil, desde 2010 os fabricantes são obrigados por lei a pegar de volta eletrônicos usados (você pode entrar em contato com eles e solicitar a devolução). 
Mas quase ninguém sabe – e, por isso, reciclamos apenas 2% de nosso e-lixo.